Coisas do Carnaval

Sobre os desfiles de fantasias.

Por Marco Beja

Marco Beja, desfilante premiado nos desfiles de fantasias, mostra como começou a presença feminina na categoria luxo.

Houve um tempo, na cidade do Rio de Janeiro, em que, apesar de os festejos momescos misturarem os foliões, independente de quaisquer diferenças, algumas manifestações alimentavam o imaginário de pessoas de maior poder aquisitivo, enquanto outras envolviam apenas os mais pobres. Era um tempo de carnaval do asfalto e de carnaval do morro. As grandes sociedades, por exemplo, eram frequentadas, durante o ano por pessoas de classe média. Produziam em suas sedes bailes e umas tantas atividades culturais. Já as escolas de samba tinham suas quadras nas comunidades mais carentes e raramente produziam atividades que não fossem voltadas para a preparação do grande desfile do domingo de carnaval. Nessa pegada, ou seja, nesse contraste entre asfalto X morro, no domingo de carnaval criava-se uma grande expectativa em relação ao concurso de fantasias do Teatro Municipal que acontecia antes da realização do baile carnavalesco mais importante da cidade. A disputa era feita durante a tarde e os premiados exibiam-se numa passarela para os foliões. Apenas uma parcela muito pequena da sociedade tinha o privilégio de ver de perto as luxuosíssimas fantasias. A grande massa tinha acesso apenas à transmissão televisiva feita em preto e branco e a umas poucas fotografias nas revistas da época. Não havia, por parte dos concorrentes, nenhuma frustração já que seus pares podiam admirar e elogiar seus esmeradíssimos trabalhos, frutos de minuciosas pesquisas. O carnaval é uma festa mágica e, como tal, é capaz de produzir transformações inusitadas. Em 1963, o desfile oficial de fantasias sofreu um baque inesperado: teve como competidora, na categoria luxo feminino, uma anônima egressa do carnaval do morro. Dona Isabel Valença inscreveu-se para desfilar com a fantasia “Xica da Silva”, desenhada para ela por Arlindo Rodrigues, professor da Escola de Belas Artes da hoje UFRJ. A presença de Dona Isabel não causou apenas mal-estar, despertou a fúria das senhoras de sociedade que gastavam fortunas para terem suas fantasias pesquisadas e confeccionadas pelos ateliers mais famosos da cidade. Ela, dona Isabel, não só desfilou, como ganhou o certame. Dona Marlene Paiva, figura tradicionalíssima dos desfiles, considerou-se injustiçada, disse-se irritada e que deixaria os desfiles. Mais uma vez a magia do carnaval atua e transforma. Alguns anos depois, dona Marlene Paiva, de quem me lembro com grande carinho, tornou-se o primeiro destaque da Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba que amou e a que foi fiel enquanto viveu. O carnaval também tem ironias. Dona Isabel Valença não quis mais concorrer nos desfiles oficiais de fantasia, apenas abriu portas. Insiro-me num grupo de jovens apaixonados por carnaval que, no final dos anos 80 e início dos anos 90, migrou dos desfiles das escolas de samba para as passarelas dos desfiles. De certa forma, na época, revolucionamos com fantasias muito criativas e renovadoras. O melhor dessa história é que, a partir de nós, já não existiam os do asfalto e os do morro.

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